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Qual a duração ideal para a consulta médica

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Falar sobre a duração da consulta médica é algo que muitas vezes gera polêmica, principalmente quando se trata do atendimento na rede pública ou por convênios de saúde.

Enquanto os pacientes anseiam por consultas mais longas e sem pressa, para tirarem todas as suas dúvidas e receberem um diagnóstico e indicação de tratamento confiáveis, os médicos têm rotinas cada vez mais atribuladas e sofrem maior pressão para aumentar a produtividade, tornando difícil a tarefa de conciliar os interesses de ambos.

Qual a duração ideal para a consulta médica

Quando um paciente agenda uma consulta, ele já passa por um processo de espera de dias, semanas ou ainda meses até que chegue a data do compromisso. Chegada a data, o paciente ainda tem que lidar com o tempo de espera na recepção. Todo este processo cria enormes expectativas no paciente, que entrará no consultório querendo aproveitar ao máximo a consulta, relatando todos os sintomas, tirando todas as dúvidas e entendendo sobre o possível diagnóstico e tratamento dados pelo médico. Não é sem razão que a consulta se torna, então, frustrante quando o médico demonstra pouca atenção e interesse e grande pressa em fazer as mínimas avaliações necessárias e entregar uma receita.

Mas então como saber qual é o tempo ideal para atender o paciente com calma e dando toda a atenção necessária? É possível definir um tempo ideal?

Se considerarmos a diferente natureza dos atendimentos em cada especialidade médica e, não apenas isso, mas também as diferenças entre os tipos de consulta, logo inicialmente já parece ser bem complicado tentar estabelecer um tempo ideal que consiga enquadrar tamanha diversidade.

Tempo médio

O tempo necessário para uma consulta médica é o ideal para o médico realizar anamnese, exame físico, diagnóstico e tratamento. Porém, este tempo não pode ser definido exatamente por nenhum órgão ou entidade. O que há hoje em dia é apenas um consenso entre os bons médicos de que 25 minutos seja um tempo mínimo para que uma avaliação correta seja realizada.

Mas estes 25 minutos já se tornam impraticáveis quando falamos da rede pública, por exemplo, em que o padrão de produtividade do médico é atender pelo menos 16 pacientes em uma jornada de 4 horas. Na rede conveniada o parâmetro também é atender no máximo 4 pacientes por hora, deixando apenas 15 minutos para cada consulta em ambos os casos.

Problemas da consulta rápida

Não são poucos os problemas que decorrem de consultas rápidas que podemos listar:

Satisfação do paciente

As "consultas a jato" se tornaram tão comuns, que os pacientes já consideram um privilégio serem atendidos em 15 minutos. Um estudo da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo[1] acompanhou consultas na rede pública e identificou que pacientes atendidos entre 11,4 e 15 minutos consideraram o atendimento excelente e apenas os que ficaram de 0,1 a 3,7 minutos com o médico – ou seja, nem quatro minutos – acharam que foram mal atendidos.

Na rede particular há uma tolerância muito menor, e mesmo um tempo de 10 a 15 minutos de consulta já pode ser motivo para o paciente sair insatisfeito, considerando o atendimento ruim.

Relacionamento com o paciente

O estabelecimento de uma relação de confiança entre o médico e o paciente tem enorme influência nos resultados de saúde alcançados. A consulta é o momento em que o médico deve se inteirar dos hábitos do paciente, de modo que seja possível realizar diagnósticos mais precisos, com base em mais fatores além de uma avaliação física superficial.

Em uma consulta rápida não há tempo para investigar hábitos, conhecer de fato o paciente e fazê-lo ter confiança de contar toda sua sintomatologia, o que pode levar o médico a apenas atenuar sintomas, sem de fato identificar e tratar a doença que os causa.

Erros de prescrição e compreensão

"No Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde, 50% dos remédios comercializados são prescritos, dispensados ou usados de maneira errada. E, segundo especialistas, 49% dos erros são feitos pelo médico, na hora da prescrição."[1]

A pressa no momento da consulta pode fazer com que o médico prescreva medicamentos ou doses erradas, ou, ainda que a prescrição esteja certa, receber pouca ou nenhuma explicação pode levar o paciente a um uso incorreto. Em ambos os casos as consequências podem ir desde algo leve, como simplesmente não resolver o problema do paciente, como podem também ser graves, gerando novos problemas de saúde.

Na prática

É necessário que haja um esforço por parte de pacientes e médicos para lutar por uma consulta criteriosa e com o máximo de zelo pela relação médico/paciente. Deve haver foco em um atendimento mais humanizado, que permita ao paciente uma participação mais ativa na consulta e nos seus cuidados de saúde de modo geral.

Cabe a cada médico encontrar um equilíbrio entre seu trabalho e as necessidades dos pacientes. A única forma de achar o tempo ideal para suas consultas será testando e ajustando. Comece estabelecendo um tempo que lhe pareça razoável para realizar sua rotina de atendimento com calma e atenção, levando em consideração o tempo que o paciente deverá utilizar para fazer seu relato e tirar dúvidas, e aplique este tempo determinado para todas as consultas durante pelo menos uma semana. Ao final da semana você poderá avaliar se o tempo foi suficiente para realizar os atendimentos com qualidade, se os pacientes ficaram satisfeitos e se o fluxo das consultas funcionou sem grandes atrasos ou espaços ociosos.

A secretária também pode ser de grande ajuda para que o tempo da consulta seja bem aproveitado. Ela pode orientar aos pacientes no momento da marcação que anotem os sintomas, dúvidas, medicamentos utilizados e histórico principal para que no momento da consulta seja mais fácil lembrar de tudo que deve relatar ao médico. Eles também devem ser orientados quanto a chegar adiantados para a consulta, evitando que o tempo de atendimento seja prejudicado por conta do atraso.

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O médico tem obrigação de realizar anamnese e exame físico, elaborar hipóteses ou conclusões diagnósticas a partir do relato do paciente, solicitar exames complementares ou prescrever remédios quando necessário e não deixar que a estrutura do hospital ou clínica onde atende interfira nas suas escolhas de tratamento.

Já o paciente tem o direito de relatar seu histórico de saúde, informar todos os sintomas que considerar importante para a realização do diagnóstico, conhecer as hipóteses de diagnóstico e ter todas as suas dúvidas sanadas, seja sobre sua condição, exames, uso de medicamentos ou outras.

Uma "boa consulta" é determinada pela qualidade do atendimento médico e não por sua duração. Uma consulta pode durar 5 minutos ou 1 hora, desde que todos estes deveres e direitos sejam respeitados, garantindo ao paciente a correta identificação e resolução dos seus problemas de saúde.

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1. A praga das consultas a jato, disponível em https://istoe.com.br/182300_A+PRAGA+DAS+CONSULTAS+A+JATO.

 

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